Era 1 de Outubro de 2012, e de repente, no final do dia, mal acordado da sonolência vegetativa que me consome permanentemente nesta altura do ano, sinto as mãos do meu amo a entrar no armário e a agarrar-me em conjunto com o monte dos meus amigos polos e Tshirts de manga curta, transportando-nos para o sofá do escritório onde já estava acomodada a Sansonite preta, de boca aberta, deixando ver o fundo vazio. Percebi que ia haver viagem pela certa e que era das grandes e para um destino de clima quente. Como habitualmente seguiu-se a volta e revolta do monte para decidir quem vai e quem fica: esta não, que já tem muitas nódoas inapagaveis no peito, esta não, que já está muito descorada, esta não, que já tem o pescoço muito apertado, este não, que já tem a cinta muito alargada, este não que fica muito apertada na barriga. Cheio de orgulho fiquei entre os 10 seleccionados, não sem surpresa, dos meus quase 12 anos de vida. Também, pudera, sou um polo Lacoste dos feitos à moda antiga, que me cuido para aguentar a idade: só me deixo lavar quase a frio, não deixo que me torçam muito, se o meu amo me deixa cair nódoas das feias lavo-as o mais depressa que posso com detergente da louça, passo o inverno no quentinho do armário dormitando longamente. Mas, mais importante que tudo, é a minha boa genética que me deu este esta resistência ao tempo e à fadiga. E é assim tenho ainda um corpo bem feito, o colar sem desgaste, os bordos das mangas bem definidas, fazendo inveja aos meus amigos, muitos anos mais novos. Mala, sabes o que se passa? Vamos viajar pela certa, mas sabes para onde? Sei eu, sei eu, disse a mochila Sansonite que estava pousada no chão ao lado do sofá-cama do escritório. Falei há pouco com o Aipede e ele contou-me tudo ao pormenor. Aipede? Quem é esse? Ele agora está a dormir aqui dentro da minha bolsa de fora, mas daqui a pouco já to apresento. É uma coisa parecida com o Toshiba portátil do nosso amo, mas mais pequeno, não tem a tampa com ecran, nem buracos pelos lados, nem fios, nem ventoinha; tem uma tampa mole que se enruga e que faz de travesseira ao próprio Aipede. É muito conversador, tem uma voz estereofónica, vais gostar dele. E o Toshiba, onde está? Cheira-me que vai ficar cá: o amo tirou-o da minha bolsa e colocou-o em cima da mesa, ali em cima. Que pena, sempre nos dizia tudo o que ele escrevia e deixou-nos sempre ver as fotografias que o amo fazia diariamente para colocar nos blogs das viagens. Esperemos que este Aipede, ou lá como se chama, faça o mesmo. Mas conta lá para onde vamos e quando é a partida. Nesta altura já o tripé grande da fotografia escorregava do sofá para o chão batendo com grande estrondo no soalho de madeira. Trooooooooommmmmm. E o monte das camisolas, a sacola dos produtos de higiene, o Aipede, as meias, as cuecas, deram um salto de susto, acordando rabugentas e a gritar sem saber o que provocara tal desacato. Irra! Isto são lá horas de fazer uma barulheira destas? São sempre os mesmos, os do cu duro a bater nas madeiras, disseram os tecidos. Que pena eu tenho de não poder fazer barulho ao bater contra algo mais duro, dizia um par de cuecas pretas. Já não me basta os peidos de trovão com que o amo me acorda de madrugada. Mas um dia, quando estiver bem suja, daqueles dias em o amo me sela na zona do traseiro, diabos me carreguem se eu não me vingo: pego num fósforo, imolo-me e logo verão o que sobra de vocês, depois do incêndio que se seguirá. Vamos lá falar do coisas sérias, que isso é importa. Ó Aipede, agora que já despertaste, conta tu o que sabes sobre a viagem que vamos fazer, pedi eu. Ele fez escorregar sobre o ecran a tampa rugosa, espeguiçou-se, fez dois sons agudos, piscou várias vezes e finalmente começou a contar: vamos para a India, pessoal! E vamos dentro do avião com o amo! Nada de ir no porão a apanhar aquele frio de morrer que, na grande altitude, faz no bojo do avião. Pra a India?! Que nojo, disse o par de sapatos de borracha grossa. Já lá fui há quatro anos e passei o tempo a pisar merda, lixo e coisas que tal; um dia numa terra chamada Madurai fomos logo de manhã ver um mercado típico e o chão estava num lamaçal terrível por ter chovido toda a noite. Meus meninos, aquilo era mais merda e mijo do que água e eu tive de passar por dentro daquelas poças todas. Brrrrrrr. India, não! Tchiuuuuuuuuuuuuuuuu. Nada de comentários inúteis. Conta, conta tudo ó Aipede, ordenei eu, de novo. Vamos para o Norte da India, mas antes vamos três dias ao Nepal. E partimos já na sexta feira às seis da manhã. Vamos por Lisboa, depois por Londres, fazemos escala em Deli e finalmente chegamos a Katmandu. Ele comprou a viagem a uns tipos lá da India que se chamam Welcome Tours and Travels, duma cidade chamada Chenai. Ena pá, ainda faltam quatro dias, oxalá que ele ainda não mude de ideias e troque alguns de nós por outros. Queria tanto ir, disse a gilette de 4 lâminas. Nunca saí para longe. O mais que fui, foi a Lisboa, quando o amo lá vai às reuniões do trabalho dele. Gostava de sentir outras águas, de ver outros espelhos, de espreitar outros quartos, de conviver com todos voçês. Tu vais de certeza, então tu agora és a favorita desde que ele acreditou na balela da gillete de que quatro lâminas a cortar em simultâneo é melhor do que só duas. Tretas: uma só chegava muito bem . Tens quarto lâminas a cortar em simultâneo, és suave e fácil de lavar, disse a escova de dentes; já eu não tenho a mesma certeza: ele anda sempre a mudar ultimamente, não me liga nehum; vejam bem que há pouco tempo, quando dei conta já estava na mão da ama e não me safei de ela me utilizar naqueles dentes marfinosos dela. Que chatisse, fiquei toda dorida: a tipa tem a dentadura duríssima e muito certa e ainda por cima esfrega com muita força e sangra que se farta do serrote. Porra, que desgaste! Então, mas isto já está completo? Não vejo aqui um só par de calças que seja, disse um par de meias MeiasMedidas novo em folha olhando para o cimo da mala. Não sei, mas se calhar não vai levar para poupar espaço. Já com os polos acontece muita poupança: vai levar só o necessário para os primeiros oito dias e depois manda fazer uma lavagem para a segunda parte da viagem. Que parvoice! Mas se só leva as calças que veste, não as pode mandar lavar, disse eu. Pode, pois, lava à noite, secam e veste de manhã, disse o polo azul Sacoorbrothers. Cala-te ó palerma! Lá por seres arraçado de indiano, pensas que já sabes tudo. Não há hoteis que peguem numas calças à meia noite e as entreguem lavadas às 7 da manhã. O mais certo é que o porco do nosso amo ande 15 dias com as mesmas calças, disse o par de cuecas pretas Intimissimi. E nós é que vamos aguentar o cheiro da braguilha e do cu. Não vão sem resposta que já uma vez fez isto numa viagem de duas semanas à China, disse eu. Mentira, gritou o par de sapatos. Eu estava nessa viagem e ele andou vários dias com uns calções que comprou lá e que ainda hoje os tem. Pode ser, talvez tenhas razão, concluí. Tchiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiu, cuidado, que o amo vem aí, gritou de cima da secretária o India do Lonely Planet. Tudo a dormir!
O amo entrou, trazia na mão um par de calças que arrumou no cimo da mala, ajeitou melhor a bolsa das higienes, passou as duas correias de segurança por cima de tudo, apertou-as, fechou a tampa, correu o fecho eclair, pegou na pega do topo e foi colocar a mala junto à porta da rua. Que exagero, ainda faltam quatro dias! Mas o nosso amo é assim, inqueto, irrequieto, ansioso, tarado da pontualidade e do planeamento e da organização. E lá ficamos nós, longe da mochila a dormitar durante quatro dias e quatro noites à espera, de vez em quando acordados em sobressalto pelo bater violento da porta da rua, quando a empregada entra ou sai.
| Só maletas, nada de malonas |
| No aeroporto de Lisboa, tomando o pequeno almoço |
| Em Heathrow, almoçando |
| Algumas senhoras almoçando |
| Esperando a hora de partida de Heathrow para Delhi |
De Londres ao Nepal
Estavamos nós (Maria José e António) sentados, há cerca de 10 minutos, na gare de Heathrow, à espera que o placard nos indicasse a porta de embarque, quando o telemóvel tocou. Era o solícito e diligente David a indagar se já tínhamos chegado ao aeroporto e a convidar para uma deslocação até à zona da restauração. Lá fomos, arrastando as malas e atravessando previamente outros restaurantes, porque não tínhamos entendido bem as coordenadas do local. Bem lá no fundo, à esquerda, numa zona de restauração mais requintada, deparámos finalmente com o David. Estava ele numa mesa redonda com outros cavalheiros, para nós desconhecidos. Numa outra mesa, também redonda, mas a curta distância, vislumbrava-se a Odete e a Lina, nossas conhecidas, em amena cavaqueira com outras damas. Perante tal surpreendente, e para nós inusitada segregação, qual androceu e gineceu, lá teve o António que se instalar na mesa dos cavalheiros e a Maria José seguir para a mesa das respeitáveis senhoras que mais pareciam estar a regalar-se com o chá das cinco. As circunstâncias não eram obviamente propícias a qualquer apresentação formal, mas é certo que haveria muito tempo para conhecimento mútuo. De todo o modo, não se justificava qualquer receio, porque era gente fixe concerteza. De acordo com a informação de um amigo comum, muito conhecido dos dois, sabíamos que nem qualquer pessoa entrava no convívio próximo do David. pois, antes disso acontecer, teria de passar por um exame prévio e um rigoroso e demorado período de prova.
Por azar fiquei sentado junto do David que, naquele momento, atacava violentamente um grande naco de carne de vaca. Até parecíai que não comia há oito dias. Logo veio à minha memória um recado dado pelo mesmo amigo comum, qual seja, “viajando com o David esquece sandes ou fruta”.Todavia, os factos posteriores desmentiram a substância desse aviso. Diga-se que o David, com a educação e gentileza que lhe são apanágio, logo perguntou se eu queria almoçar. È verdade que eu respondi negativamente, sem nada mais acrescentar. ou apresentar qualquer justificação. lançando, embora, uns olhares furtivos e concupiscentes sobre a saborosa e suculenta posta de carne. Então, aquele luzidio molho!... Mas vejam lá (vidé narrativa supra), concluiu ele intimamente que eu andava a fazer dieta. Aceito que essa poderia ser uma conclusão lógica. Mas não colhe, até porque acho que não devo emagrecer mais. Já basta o ginásio e a realização de algumas corridas.
Expliquemo-nos, contudo:
o David (doravante também conhecido por “nosso querido amo” -vidé supra- e líder) sabia que eu e a Maria José teríamos de fazer “transfer by bus” entre Gatwick e Heathrow. De antemão estavamos cientes que essa deslocação levaria algum tempo. Verificámos que essa demora não era tanto pela distância, mas antes porque o trânsito pela M16 é muito intenso e, durante algum tempo, processa-se mesmo em “pára -arranca”. Consequentemente, com a preocupação de chegar a tempo do embarque, e cumprindo todas as formalidades nos aeroportos, onde, por azar, em Heathrow até nos vasculharam uma das malas, seguimos a regra da boa prudência ou do velho ditado que reza” “se vais ao mar avia-te em terra”. Ou seja, por outras palavras e de acordo com as circunstâncias, “prepara um bom farnel e não te preocupes em abancar em restaurante”. E logo no aeroporto de Gatwik, enquanto aguardavamos pelo bus durante 45 minutos, logo, na plataforma, e debaixo de uma corrente de ar inclemente, tragámos gulosamente as sandes. Como sempre, a Maria José, fazendo jus a devotada esposa, na repartição, cedeu a parte de leão. Mas como não há bela sem senão, também aí fui atacado por uma londrina “ sore throat”, que nunca mais me largou durante toda a viagem, qual impertiinente carraça.
Serve esta explicação meu “caro amo”? Não retire, por favor, conclusões maldosas.
Mas voltando ao opíparo almoço dos cavalheiros de que fui testemunha privilegiada, -e omitindo propositadamente qualquer referência às bolachas e chá com que as senhoras se compraziam, -pude apreciar o gesto desprendido e magnânimo do David que pagou o “bill” global mediante cartão de crédito, para gáudio e satisfação dos demais comensais que assim puderam fruir de uma boa e fácil digestão. Apeteceu-me mesmo dizer, “é bem feito, os ricos que paguem a crise”. Afinal que parvo eu fui, pois podia ter aproveitado a boleia, e, na verdade, um bifito sempre marchava.
Tudo aparelhado, toca a arrastar as malas até à sala de embarque, onde nos esperava o Boeing 747-400 da BA, que, pelas 17h40, levantou voo até Nova Deli, numa viagem de 8h10.
A propósito, e entre parêntesis, justificava-se tanto empenho em levar somente bagagem de cabine? Apenas vejo a vantagem de evitar o extravio e danos nas malas, porque quanto ao mais...Seguindo essa prática, como é que as senhoras podem ataviar-se como gostam e os homens apreciam? Seja assim...paciência.
Mas voltando à nossa narrativa, diga-se que a maravilhosa máquina voadora, pontual e diligentemente, e depois de devidamente acomodado o pessoal nos respectivos assentos, lá começou a rasgar os céus, em grande parte escuros, da Rússia, das antigas repúblicas da URSS, do Afganistão, do Paquistão, até pousar suavemente no aeroporto Indira Gandi, em Nova Deli, pelas 6h20.
| Em trânsito no aeroporto de Delhi |
| Indigo - uma excelente low cost |
| Asa do Indigo quase "roçando" nos himalaias |
| Fila para o visto na entrada de Katmandu |
| Avenida principal à saída do aeroporto de Katmandu |
| A bordo do nosso minibus |
| A máquina vista de fora |
| Uma rua comercial do centro de Katmandu |
| Mais uma zona comercial |
No dia 07.10, à hora marcada pelo guia, lá seguimos para uma visita à cidade, começando por Pashupatinah. Convém dizer, desde já, que durante os 3 dias de acompanhamento o guia quase “entrou mudo e saiu calado”, porque não me recordo de qualquer informação turístiva relevante. Pashupatinah fica junto das margens do rio sagrado Bagmati. O lugar é uma espécie de modesta Varanasi nepalesa, onde são cremados os cadáveres em piras segundo os ritos do hinduísmo e que pudemos apreciar. Aí se encontra um templo, cujo acesso nos foi vedado, e que é o lugar de peregrinação mais famoso dos hindus nepaleses. Foi, no entanto, possível vislumbrar, no interior e logo na entrada, uma estátua gigantesca revelando a parte traseira de um animal (touro?), como ainda foi possível tirar algumas fotografias da parte aérea desse templo a partir de um sítio altaneiro, depois de subir uma escadaria. Houve também ensejo de fotografar dois “cromos”a representar, com côres garridas, ascetas hindus, mas com o único objectivo de obter uma moedinha, objectivo também prosseguido por várias mulheres hilariantes, com vestes de côres vivas, mais parecendo que estavam num harém, mas para tal não sendo muito favorecidas pela idade. Aqui, como em toda a parte, os vendedores (as), de bugigangas eram insistentes, acabando eu por ser mimoseado com a expressão “a tu louca”, por uma vendedora que perseguiu a Maria José desde o princípio até entrar na Van, simplesmente porque nada lhe comprou. Vão lá dizer que eles ou elas não sabem português!.
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| Almoço após a visita à Stupa |
Realizou-se, depois, uma viagem de alguns quilómetros, por uma via em mau estado para visitar Budhanilkan, onde se encontra a estátua do deus Vishnu, de côr preta, deitado num lado de serpentes (fictícias). Houve ensejo de admirar as actividades e estilo de vida dos nepaleses ao longo das margens da via.
| Instantâneo da prisão do companheiro Pinheiro |
Nesse dia, porém, e após o jantar no hotel, o companheiro Pinheiro redimiu-se da malfeitoria que todos envergonhou, traduzindo em voz alta, a partir de um livro em inglês, informação turística sobre o Nepal. Inquestionável acção meritória, já que o guia contratado, como se já se referiu, foi completamente omisso. Merecidamente foi, pois, logo perdoado, podendo continuar a viagem na nossa companhia.
| Mini-saia nepalesa e cus portugueses (um é de homem!) |
No dia 08.10, pela manhã, realizou-se a visita à cidade real de Patan, património mundial da Unesco, situada na periferia da cidade de Katmandu, polvilhada de belos e famosos edifícios seguindo a arquitectura budista e hindu. Emergiam as casas da antiga família real, bem como templos dedicados a deuses hindus, entre eles o deus Krisha. Nessa praça encontrámos duas jovens turistas portuguesas com quem é sempre agradável conversar em paragens tão remotas, após uma certa surpresa inicial. Afinal, Portugal, apesar de ser relativamente pobre, não é um país de navegadores, aventureiros e “fufas”?
Após a visita, lá seguimos para Bhaktapur, uma cidade situada 14 Km a leste de Katmandu, cuja praça, com vários edifícios históricos de arquitectura singular (género pagode), é também património mundial da Unesco. Aí releva o palácio do antigo rei de Bhaktapur, com as suas 55 janelas que fica em frente do templo dedicado à deusa Telejeu, cujo acesso é restrito aos hindus. Verifica-se, na verdade, que o budismo e o hinduísmo convivem pacificamente no Nepal.
Regalado o estômado com algumas poucas peças de fruta, e umas bolachitas, prosseguimos viagem para a povoação de Nagarkot, situada no cimo de um monte, a cerca de 32 km a nordeste de Katmandu, levando sempre a Van na sua peugada a carripana (taxi) carregada com as malas. Aí era bem visível o saco esverdeado adquirido pela Céu em Katmandu e que fazia inveja a todos pela sua qualidade e módico preço. No caminho houve ocasião de mirar o verdejante vale de Katmandu com os seus campos de arroz, bem como as diversas actividades dos nepaleses. O objectivo da deslocação a Nagarkot consisitia designadamente em apreciar o nascer do sol sobre os picos nevados dos Himalaias (Evereste). Ficámos instalados num hotel modesto para as nossas exigências, com os quartos esparsos entre árvores plantadas na encosta, mas que não ofereciam grande comodidade.
Antes do jantar houve lugar a um arremedo de vista do pôr-do-sol, após prévia caminhada através da povoação de Nagarkot, onde o nosso “querido amo” comprou, após regateio, um artefacto de madeira (máscara), que transportou zelosamente e que era destinado a engalanar o seu palacete brasonado situado nas fraldas do Caramulo. Aí se distiribuíram esferográficas por algumas pobres, mas felizes e simpaticas, crianças, que nos surgiram ao caminho. Aqui, como sempre, tivemos a companhia silenciosa, mas atenta e à distância, do nosso guia.
Nessa noite, após o jantar, ficou combinada entre nós a hora de levantar no dia seguinte a fim de poder ser apreciado o famoso nascer-do-sol, por volta das 6h00. Lá estava, antes da hora, a malta toda, agasalhada e a tiritar de frio, em pé sobre um terraço superior do hotel. Ansiosos por esse momento mágico, lá iam ajustando nervosamente as máquinas fotográficas enquanto gravavam os rostos das belas companheiras ou mesmo do grupo em fila indiana numa artística pose de perfil recortado, tudo para mais tarde recordar. Apesar do vale estar algo ofuscado por uma certa neblina, lenta e preguiçosamnte, ao fim de algum tempo, os cumes nevados e esbranquiçados da cordilheira dos Himalaias foram resplandecendo com os raios do sol num momento singular de êntase. Como refere o site de Nagarkot, “When sunrise comes, it just might be the most beautiful place on Earth”. Sempre acrescentarei, sejamos justos, nem tanto ao mar nem tanto à terra, porque “água benta e presunção cada um toma a que quer”.
Após o pequeno alomoço, a Neuza e o António ficaram incumbidos da espinhosa tarefa de preencher um impresso sobre a qualidade do serviço do guia e condiçoes do hotel, cujos itens foram redigidos pelo inteligente e culto Pinheiro (agora já não meliante, porque já está perdoado). Todavia a apreciação foi tão negativa, que os redactores fficaram com dor de coração, apesar da justiça do julgamento.
Estando cumprido o programa em terras nepalesas, toca a seguir para o aeroporto pelo mesmo caminho que nos tinha trazido até Nagarkot, percorrendo um pequeno trecho de amostra de auto-estrada nas cercanias de Katmandu. Chegámos com razoável antecedência ao aeroporto, todos fomos apalpados várias vezes por razões de segurança, e até tivemos ensejo de assistir, à entrada, mas já dentro da gare, à cena hilariante de um pequeno macaco (afinal um animal quase sagrado por estas bandas) a beber de uma pequena garrafa de coca-cola que uma companheira (Odete?) deixou no chão, tendo o símio descido lampeiro da parte superior da gare e lá voltou veloz, bebendo qual criatura humana e olhando muito admirado para os “macacos inteligentes” que se divertiam com a cena no patamar inferior. Estaria ele a pensar que somos todos da mesma espécie? Sei lá...
Pelas 15h00, desse dia 09.10, após umas sandes e compras de recordações do Nepal no interior da gare, lá fomos para o avião da Air India, em direcção a Varanasi, sem que à entrada no avião, e para surpresa geral, mais uma vez tivessemos sido submetidos a mais apalpadelas e vistoria das malas. Está visto, os indianos não confiam nas medidas de segurança dos nepaleses, apesar de tudo.
Varanasi sur Ganges
À hora prevista, aterramos em Varanasi num aeroporto pequeno, mas de construção recente e moderno, bastante distante em termos de aspeto e funcionalidade daquele que serve Katmandu, provavelmente candidato ao registo no livro de recordes do Guiness, como o pior aeroporto de capital de um país. Descemos do avião e uma onda de calor submergiu-nos de imediato, de um modo agradável, descomprimindo o corpo, após o usual frio a que se é obrigado suportar nos aviões, antecipando o tempo quente com que iriamos conviver nos próximos dias. Isto levou-me à reflexão recorrente, da minha crescente dificuldade em lidar com o frio, facto que se tem acentuado com o passar dos anos e me faz recordar as queixas da minha mãe relativas ao Inverno e ao sangue fraco dos velhos.
Sempre dentro de alguma ansiedade, procuramos o guia e a carrinha que deviam estar à nossa espera, o que aconteceu após breves instantes. Fizemos as apresentações costumeiras e após a colocação das malas, entramos no autocarro, com um ar exterior, bem mais atraente do que o interior, onde a usura dos anos era notória em todas as peças. Recebemos o quinhão de água a que contratualmente tínhamos direito e iniciamos a viagem para o hotel. O coro de buzinadelas e o trânsito caótico que sempre acompanha quem se desloca nas maltratadas estradas indianas, autênticos tapetes de asfalto, contudo, quando comparadas com as congéneres nepalesas, perseguiu-nos até ao Hotel que propositadamente escrevi com letra maiúscula para dar conta do excelente equipamento de que íamos desfrutar e que valia bem o upgrade de preço que tínhamos decidido pagar. Entramos para o hall do mesmo, bonito, com uma chaminé alta que lhe dava estatuto e uma cores agradáveis, em tonalidades de creme e castanho, quebradas pelo vermelho do tecido que revestia os sofás. Pelo ar do grupo, via-se que a satisfação se tinha apoderado de todos, depois das condições menos agradáveis a que fomos sujeitos nos alojamentos do Nepal onde tínhamos pernoitado as três noites anteriores – finalmente uma dormida decente, numa unidade hoteleira de excelentes condições. Obsequiados à chegada com uma bebida e um colar de flores laranjas, tão comuns neste país, relaxamos enquanto nos tratavam do registo e da distribuição dos quartos.
Após combinarmos a hora da saída do hotel, subimos e confirmámos que as instalações cumpriam, em termos de conforto, o que era prometido exteriormente. Da janela ampla, via-se uma cidade pobre, se não mesmo miserável, como é apanágio das urbes deste enorme país. O edifício erguia-se altaneiro, apenas confrontado na sua altura por mais duas unidades hoteleiras existentes, também elas modernas, parecendo um oásis de luxo num campo de pobreza e sujidade.
Varanasi é um exemplo das densas cidades que povoam a India e do próprio país. Este, um dos mais populosos do mundo, com mais de mil milhões de habitantes e uma população incrivelmente jovem, é considerado um dos BRIC´s (Brasil, Rússia, India e China), sigla atribuída aos países de economia emergente com elevadas taxas de crescimento do seu Produto Interno Bruto. Quando viajamos no seu território, percebemos rapidamente uma miséria extrema, patente ainda em largas camadas da população, apesar da muitos Indianos terem abandonado o limiar de pobreza, na sequência da liberalização económica iniciada nos anos 90. A ausência de funcionamento daquilo que são as condições básicas de salubridade em cidades que normalmente têm populações acima dos 3 milhões de habitantes - saneamento, distribuição de água ao domicílio e recolha de lixo, a inexistência de infraestruturas de qualidade, seja ao nível rodoviário ou da produção e distribuição energética, associadas a uma taxa de analfabetismo ainda elevada e a uma burocracia congénita e asfixiante, tornam difícil o crescimento económico sustentado, como é visível nas taxas obtidas nos últimos 5 anos. A impressão que se retém é a de um país com um enorme potencial, baseado sobretudo na dimensão do seu mercado interno, com mais de mil milhões de consumidores, cujas elites não foram capazes de promover as condições necessárias à criação de um poder económico equivalente.
Após alguns momentos de descanso, sem nunca dar grandes tréguas ao corpo, para que o cansaço não me traísse, na descida a horas do quarto, lavei os dentes, fiz uns estiramentos para manter a ferrugem no lugar e desci com a minha mulher ao hall de entrada. Alguns já estavam e após a reunião do grupo e algumas palavras trocadas, fomos conduzidos ao exterior, onde alinhados, junto a uma parede das traseiras do hotel, se encontravam cinco riquexós, com ar decrépito, desde a pintura, há muito apagada, da estrutura tubular, até aos assentos, já estofados várias vezes, em oficinas sucessivamente mais baratas, e às coberturas recolhidas que se abertas com algum ímpeto, rasgariam de certeza a pequena quantidade de pano que as cobria. Tão tristes os veículos, como os condutores: magros, alguns esquálidos, muito morenos, com pequenos bigodes, camisas creme, calças de fazenda já com muitos anos e muito uso e a confortável chinela que a maior parte dos indianos usa. Estes factos não impediram o entusiasmo do grupo que rapidamente ocupou, aos pares, cada um dos riquexós disponíveis. Nunca tinha andado em tal transporte e, embora magro, revezei-me com a minha mulher em chegar o traseiro mais à frente ou atrás, conforme o cansaço e as circunstâncias, para que se pudesse circular dentro de um conforto aceitável. Dúvida tinha muita quanto à capacidade física dos condutores para nos levarem ao destino, até então desconhecido, que o guia com eles tinha contratado. Felizmente éramos todos razoavelmente magros, o que devia ser uma bênção para os condutores, embora, mesmo nestas condições e em piso plano, aqueles tivessem que se levantar do selim para, nas fases de arranque, imprimirem a força necessária àquelas estranhas carroças de modo a evitar que fossemos levados ao colo, tal era o aglomerado de riquexós, motas e carros que circulavam nas artérias que estávamos a percorrer. Notava-se já o entardecer e era tamanha a confusão que, em certos momentos, parecia que ficaríamos prisioneiros deste tráfego intenso, repleto de buzinadelas sem qualquer utilidade, dada a proximidade e visibilidade dos diferentes candidatos ao reduzido espaço disponível. Os elementos do grupo, excitados com aquele ambiente e no cumprimento do supremo rito turístico, iam tirando fotografias uns aos outros, nalguns casos com risco de queda dos preciosos arquivos de recordações. Não recuso a excitação do momento, onde aquela amálgama de pessoas e veículos, à distância de um braço, contaminava o ambiente, com um profundo toque de humanidade e desvario coletivo, fazendo esquecer momentaneamente tudo. Passamos por um guarda Indiano, vestido com o uniforme cor de caqui, displicentemente instalado no meio de um cruzamento, com um ar indiferente, porque ciente de que nada podia fazer para ajudar. Era deixar-se estar até que a hora de saída chegasse e pudesse desaparecer, certo que ninguém daria pela sua falta.
Finalmente descemos, ébrios da viagem, sorriso rasgado pela experiência única que tínhamos tido e deslocamo-nos atrás do guia por ruas com pouco trânsito, apenas permitido à passagem de algumas motas, conduzidas por indivíduos de equilíbrio impossível, serpenteando entre as pessoas, sem caírem e sem tocarem em ninguém. Já noite, passámos por uma praça, onde acontecia um comício político, neste caso da maior democracia do mundo, como muitas vezes este país é chamado. Sem grandes diferenças relativamente ao que se vê pelas nossas bandas: cartazes empoleirados em cima de carros, com altifalantes dispostos estrategicamente a fornecerem o maior nº de decibéis possível, um púlpito e um político a discursar, provavelmente a prometer aquilo que sabe nunca poderá dar, a ser ouvido por uma razoável multidão que reconhecia a mentira, mas mesmo assim estaria disposta a dar-lhe o seu voto. Estranho mecanismo de funcionamento, onde uma espécie de cumplicidade do embuste premeia os que mais descaradamente são capazes de enganar.
Conforme nos íamos acercando do local do destino a multidão ia engrossando e depois de uma passagem por um largo, iniciamos a descida de uma escadaria ampla, com vista para um espetáculo que, mais abaixo, junto ao rio, estava a decorrer. Nas margens da escadaria, pequenas lojas de venda de objetos religiosos, flores e artigos afins, no centro um murete em pedra trabalhada, bonito, era encosto de pedintes, vestidos com túnicas brancas ou cor de laranja, sentados na forma ancestral, joelhos erguidos e parte anterior das pernas coladas à parte anterior das coxas, com um prato metálico na mão para receber esmola e um recipiente, também metálico, cheio de arroz ao lado. Não percebi a razão de ser do arroz, se era uma questão de prática religiosa ou um tipo de donativo que habitualmente as pessoas também estariam dispostas a dar.
A visão da escadaria repleta de crentes, do rio Ganges com uma cor metálica, fruto da sujidade e das luzes que o afagavam, repleto de pequenos barcos com pessoas a assistirem, a multidão silenciosa e uma música ritmada que se ouvia, trouxe magia àquele momento e fez-me entender aquilo que tinha lido relativamente à importância religiosa deste rio para o Hinduísmo. Rio sagrado, local de peregrinação obrigatório para os crentes que acreditam que um mergulho nas suas águas é, por si só, capaz de lavar os pecados e até de curar doenças, albergou nas suas margens, desde tempos ancestrais, as cidades religiosamente mais importantes do Hinduísmo. Varanasi, tem nesse âmbito, para muitos fiéis, o estatuto de cidade mais santa, com as suas festas religiosas e locais de cremação a constituírem referências nacionais naquele enorme país.
Na extremidade da escadaria, em plataformas retangulares alinhadas ao longo da margem, seis sacerdotes jovens, com uma boa estampa física, descalços, vestidos com trajes claros de duas peças, uma das quais terminava amarrada á cintura, ensaiavam gestos graciosos que sublinhavam o ritmo musical de base, transmitindo uma sensação de apaziguamento e beleza visual. Os elementos do nosso grupo olhavam atentamente o espetáculo, com um ar de curiosidade e conveniente respeito. Eu sentia-me um pouco intruso naquele mundo diferente e desconhecido, mas, talvez por isso, tão sedutor. A multidão não intervinha, mantinha-se passivamente a olhar, enquanto os jovens sacerdotes desenhavam no ar, com o fumo que saia de candelabros ou grandes cálices metálicos, figuras circulares que por breves momentos alimentavam aquele ambiente mágico e depois se dissipavam. Era realmente muito diferente daquilo que fazia parte da minha experiência religiosa de católico, mas relatava de uma forma eloquente, a partir da combinação terrena daquela água suja e da dança dos jovens sacerdotes, a necessidade de toda a humanidade em arranjar uma extensão divina que nos possa explicar e confortar quanto à efemeridade da nossa passagem por este mundo.
Concluído o espetáculo, regressamos ao hotel, novamente nos riquexós que tinham esperado por nós, sem qualquer bandeirada adicional, e fizemos o percurso inverso. Já não havia confusão ou excitação, mas apenas o cansaço de um dia intenso, o fim de festa e a vontade de facultar alimento e descanso ao corpo. Antes de o fazermos tivemos ainda que dar a necessária gorjeta aos nossos condutores, rotina obrigatória e que nos coloca sempre a dúvida de qual será o prémio adequado ao serviço prestado e à prática local.
Dia dez de Outubro de 2010, levante madrugador como é costume acontecer em viagem, facto que não me transtorna em absoluto face à minha reduzida necessidade horária de sono e que me dá sempre algum gozo pessoal quando observo a dificuldade de adaptação ao registo diurno da maior parte dos parceiros de viagem. Pequeno-almoço reforçado, diria mesmo muito reforçado, com o desvio adicional de algumas peças de fruta que nos possam socorrer durante o dia, até porque o almoço pode não acontecer, substituído que é muitas vezes pelo repasto frugal daquilo que se conseguiu trazer.
Fomos novamente, desta vez na carrinha, diria antes camioneta que nos tinha sido destinada, para o mesmo local onde estivéramos na noite anterior. Essas zonas de acesso ao rio, apelidadas de Ghats, servem para proporcionar aos crentes o banho nas suas águas, a realização de acontecimentos religiosos e a cremação dos corpos. A magia da noite anterior tinha-se desvanecido, substituída pelo dura realidade de um espaço rodeado de edifícios com ar velho, sem o benefício de uma manutenção regular ou episódica que permitisse atenuar as rugas do tempo. Mesmo o sol, que tanto ajuda á disposição dos humanos e dos turistas em particular, bem como à beleza da paisagem retida na máquina fotográfica, estava ausente, encoberto por uma ligeira neblina que pairava sobre o rio. O grupo estava taciturno, conformado com a hora precoce do dia e a humidade presente, trazendo algum desconforto aos ossos, desabituados do clima Portuense que tinha ficado para trás há já alguns dias. As senhoras enrolaram os ombros nas pashminas provenientes da bagagem ou de compras já feitas em estabelecimentos de duvidosa qualidade que obrigavam o grupo frequentes vezes a atrasar o seu ritmo durante os passeios conjuntos. Entramos num barco dos muitos que estavam presentes na margem, e deslocámo-nos para o interior do rio, para que pudéssemos observar de local privilegiado as tarefas que os crentes realizavam.
Viam-se grupos de homens e mulheres, em trajes reduzidos, embora mantendo o conveniente decoro, junto ao rio, enquanto outros se banhavam até à cintura, submergindo por breves momentos a cabeça e molhando desta forma todo o corpo. A lavagem dos pecados estava, naquele caso, associada à angariação de uma quantidade não desprezável de coliformes fecais, capazes de nos colocarem a nós, viajantes desobrigados desta prática religiosa, com uma doença de pele ou até, se desse para o azar, com uma diarreias das antigas. Nunca percebi o estranho convívio dos Indianos com a água dos rios e quando observo este tipo de cenas, recordo-me sempre da outra viagem que tinha feito a este país, onde em Kerala, nas Backwaters, via na mesma água, quase tão impenetrável à vista como esta, lavarem os dentes ou a loiça proveniente das refeições, ensaboarem-se e tomarem banho, ou fazerem a drenagem direta do esgoto, próprio, ou das humildes habitações em que viviam.
Os barcos deslocavam-se preguiçosamente ao longo dos Ghats parando em diversos momentos, para que observássemos esta cena estranha, quase surreal. Mas a surpresa não ficava por aqui, numa dessas paragens fomos abordados por outro barco, onde um jovem sorridente trazia todo o tipo de artefactos indispensáveis á realização das oferendas religiosas. Viam-se alinhados nas abas do bote, figuras dos diferentes deuses do hinduísmo, umas pequenas panelinhas douradas que pareciam fazer parte de uma cozinha de brincar, velas para colocar a boiar no rio que, segundo ouvi, poderiam ser associadas a um desejo e os sempre ubíquos colares de missanga que, apesar da religiosidade dos expositores, ocupavam o espaço comercial de mais destaque.
Como num filme de suspense, dentro daquela tranquilidade do rio, abafado por uma neblina que insistia em permanecer e do ambiente quase familiar dos peregrinos a banharem-se, viu-se a boiar, mais ao largo, um vulto embrulhado em roupa, poiso de um pássaro de dimensão média que parecia um corvo. Formularam-se algumas hipóteses explicativas, tendo sido confirmado que se tratava de um cadáver, já que, segundo os rituais Hindus, as grávidas e crianças falecidas não podem ser cremadas, sendo diretamente atiradas à água. Esta cena arrepiante, não motivou qualquer surpresa ou incómodo aos que se banhavam, alguns até aventurando-se paulatinamente no interior do rio, contrariando uma corrente que parecia não ter força para intimidar estes nadadores. Estava saturado daquelas cenas macabras e julgo que todos partilhavam esta opinião, pelo que foi com algum alívio que voltamos a terra e iniciamos nova viagem a partir de uma viela apertada que partia do Ghat.
Começamos a subir pela vereda estreita, sombria, entre edifícios pobres e degradados de dois ou três andares, com lixo arrumado aos cantos, poucos transeuntes, mau cheiro e mau aspeto, fazendo lembrar apenas no reduzido espaço disponível, as medinas comerciais das cidades do norte de África. Notava-se que a atividade residente estava a iniciar-se, percebendo-se nalguns locais confeção de comida, em zonas adjacentes a cubículos que não teriam mais de 4 metros quadrados, cujo pavimento era coberto por uma espécie de colchão, onde o respetivo proprietário se sentava e fazia negócio. Julgo que naqueles edifícios se misturavam a habitação e o comércio, embora não saiba dizer exatamente em que proporção. Uma ou outra vaca partilhava a estreita viela à procura de comida no lixo que permanecia encostado às casas. Algumas motas, pequenas, silenciosas e ágeis, de ADN japonês, embora fabricadas no país, passavam por nós, pilotadas de forma destra por condutores sem aspeto condizente, alguns até com uma barriga que não era apenas de felicidade. Estas pequenas motas ágeis, fiáveis e duráveis substituíram de forma quase absoluta as velhinhas Royal Enfield de conceção inglesa, anos cinquenta, da linhagem das nobres marcas que aquele país produziu também com as marcas Norton e Triumph, estas últimas com um ressurgimento a partir deste novo século. Pesadas, duras, de maior consumo, pouco fiáveis e amigáveis para quem as conduz, mas com um carisma enorme, nomeadamente em termos de motor, onde o mono cilindro de 250 cc fala com um vozeirão inimitável que nos faz virar a cabeça à sua passagem. Cada vez se vêm menos na India, provavelmente já nem se fabricarão, mas continuam a ser objetos de culto para os amantes das duas rodas. Voltando ao nosso passeio, chegamos finalmente a uma loja com duas entradas muito próximas e uma área de sensivelmente 35 m2, onde, por trás de um balcão corrido que desenhava a geometria das paredes, se sentavam dois homens, de ar jovem. Particularidade que chamava a atenção era a quantidade de frascos de vidro cilíndricos cheios com líquidos de diversas cores, alcandorados de forma alinhada em prateleiras fixadas às paredes. Como é costume nestas viagens, provavelmente por ser uma maneira de os guias fazerem mais algum dinheiro, somos constantemente empurrados para bazares e quejandos, onde o objetivo é claramente sacar algumas notas aos turistas. Oferecido e degustado um chá, de sabor agradável, os vendedores da loja foram-nos municiando com informação relativa a óleos balsâmicos e outros, portadores das mais diversas propriedades, capazes de enfrentar e derrotar qualquer doença ou situação adversa, como a de um homem com falta de ignição, naqueles momentos em que tal supostamente não pode acontecer. Para além deste novo conhecimento, fomos obsequiados com a passagem de alguns desses óleos nos pulsos que, para além do cheiro intenso e nem sempre agradável, deixavam uma marca oleosa na pele. Viajantes já muito batidos nestas ofertas comerciais, ninguém do grupo se mostrou particularmente entusiasmado com a oferta, as senhoras porque o seu interesse não reside de todo nos óleos, nem sequer no dos carros que conduzem e que elas nem imaginam que lubrificam e são indispensáveis aos motores das viaturas que as transportam e os homens porque apesar do interesse que os óleos defensores da sua masculinidade podiam despertar, não se atreveram a fazer perguntas, com medo do eventual ridículo que sobre eles se abateria. Confirmo que havia alguns, apesar do ar distante e afetado que ostentavam, bem gostariam de aprofundar o assunto e levar uns frasquitos para experimentar.
Depois desta conversa toda, percebi finalmente a razão da nossa presença ali, naquele sítio recôndito – visitar o mais célebre tempo de Varanasi, o Kashi Vishwanath Temple, local obrigatório de peregrinação, com as suas belíssimas cúpulas douradas, o poço da sabedoria e literalmente construído paredes meias com a mesquita de Gyanvapi. O guia organizou-nos de modo a que individualmente tivéssemos acesso ao local, tendo para o efeito que guardarmos as câmaras fotográficas e máquinas de vídeo, já que era proibida a sua entrada. Na minha vez, lá fui, passei numa entrada muito estreita onde se podia ver um detetor de qualquer coisa, metais presumi eu, onde um guarda com o costumeiro uniforme cor de cáqui e o ar diligente que caracteriza estes agentes da autoridade Indianos nos mandava passar. Andei cerca de 50 metros por uma espécie de corredor de reduzida largura e quando me preparava para entrar no recinto do monumento percebi que tal era proibido aos não crentes. A única possibilidade que tive foi a de espreitar pela estreita entrada de acesso, empoleirado numa espécie de banco cozido na parede oposta, e fotografar mentalmente as cúpulas daquilo que deveria ser um belíssimo exemplo de arquitetura hindu e a alvura da silhueta da mesquita que, segundo li mais tarde, foi construída no local do templo hindu original. Depois desta situação estranha, fomos apanhar novamente a camioneta que, apesar do calor que então surgiu com a sua força normal, produzia e direcionava frio demasiado intenso e desconfortável que nos obrigava a tapar os orifícios de saída da ventilação, com os cortinados das janelas, ardilosamente arranjados de modo a cumprirem esta função para a qual não tinham sido seguramente pensados. Almoço frugal feito com a fruta surripiada no hotel e mais algumas compras consumadas localmente e heis-nos com as forças retemperadas para a tarde de visitas que nos aguardava.
Entramos na Universidade de Benares, outra das designações com que é conhecida a cidade de Varanasi, por uma entrada ladeada por duas torres quadradas, de cor rosa, cujos torreões ostentavam cruzes suásticas nas faces visíveis. A cruz suástica tem um significado religioso profundo nas religiões hindu e budista, sendo utilizada como uma marca de proteção. Um campus amplo, com edifícios de médio porte, igualmente em cor rosa, zonas ajardinadas envolventes, faziam lembrar os campus Ingleses, onde este provavelmente se inspirou. Após alguns metros de caminho, chegámos á entrada do templo, de ar moderno, apesar da arquitetura característica do mesmo. Obrigados a descalçar os sapatos, quem não tinha meias foi obrigado a fazer a visita ao templo descalço o que, dado o calor intenso, acabava por ser agradável, no contacto dos pés com o fresco mármore branco, material base de construção deste santuário. Espaços amplos, estátuas dos principais deuses hindus e inscrições sagradas, eram os únicos pormenores visíveis nas paredes nuas que, pela sua simplicidade e pequena frequência de religiosos ou visitantes, transmitia uma sensação aprazível de paz e relaxamento. O local de culto mais importante, tinha no centro um quadrado com cerca de 4m2, cercado por uma pequena grade, em cujo meio se erigia um símbolo, manifestamente fálico, com a parte superior de forma cónica, colorida a preto. Junto a esse espaço, sentava-se um sacerdote, vestido com um traje largo e cómodo, completamente branco, acompanhado de uma senhora que o ajudava nas diferentes tarefas necessárias à realização do culto. O Sacerdote, com alguma frequência, ungia o falo com um líquido de cor branca e cobria-o com pétalas de flor, ofertas dos crentes que por ali passavam. Contrariamente às nossas missas que são celebrações coletivas, estes atos religiosos são individuais ou no máximo familiares. Naquele caso, um casal jovem ouvia as preces que o sacerdote ia dizendo, em surdina, de forma quase inaudível. Saímos do templo, calçamo-nos e voltamos novamente ao autocarro.
Novo despejo, desta vez numa manufatura de tecidos em que após uma apresentação pouco convincente do processo de fabrico, fomos conduzidos a um local de apresentação e venda dos diversos artigos produzidos, fundamentalmente confeção de lar e de senhora. Oferta de chá e bebidas que educadamente aceitámos, e bombardeio intenso de artigos coloridos que o vendedor, ajudado por dois discretos empregados, ia desdobrando em cima de um palanque. O cansaço e a habituação do grupo a este tipo de comércio, com os armários e cómodas de casa já repletos de artigos comprados em circunstâncias idênticas, sem préstimo visível no horizonte próximo, impediam a mobilização dos compradores que, sem grande convicção, iam perguntando um preço aqui, outro acolá, deixando escapar uma exclamação de aprovação relativamente a este ou aquele artigo, atirado para o chão do palco, imóvel durante algum minutos, eventualmente afagado e avaliado por mãos femininas experientes e, logo depois recolhido pelos ajudantes de cara inexpressiva. A um canto do estrado onde decorria esta mostra, o guia, sentado, de perna traçada, óculos escuros encavalitados na cabeça e obrigatório bigode, embora mais farfalhudo que o normal, adivinhava já que não iria ter grande contributo para o curso de turismo que pretendia concluir. A apresentação começou, como é usual, nos produtos mais caros, com preço de alguns milhares de rupias e acabou em artigos de pouca categoria e valor, sem que nada tivesse tido comprador. Salvou-se a exibição de saris feita com muita categoria por uma das senhoras do grupo.
Camioneta novamente na estrada e deslocação para a periferia da cidade, para a última visita a realizar durante a estadia em Varanasi, ao templo budista localizado em Sarnath, um dos locais sagrados de peregrinação daquela religião. Após a compra dos bilhetes, entramos no recinto, vasto espaço polvilhado de ruínas de tijolo de cor avermelhada, pouco interessantes, aos quais a explicação do guia dada a um grupo já fisicamente desgastado, não conseguia entusiasmar, fomo-nos arrastando pelo vasto espaço, observando as stupas ainda de pé, grandes, de duas cores e ar sombrio, incapazes, na minha singela opinião, de fazerem a ligação do homem com o divino. Achei, aliás, toda a arquitetura budista pouco vibrante, naif, mas sem a beleza que alguma simplicidade consegue atingir. Numa zona mais altaneira do complexo, debaixo da sombra das árvores aí existentes, encontrava-se um grupo de pequenos monges, com as suas características túnicas vermelhas e a irrequietude normal da idade, parecendo até que jogavam futebol, o que devia ser impressão minha, já que na India o futebol não tem qualquer expressão – provavelmente até o Ronaldo passaria despercebido. Quando estávamos a acabar a visita começou a chover com alguma intensidade, o que nos obrigou a correr para a camioneta. Conduzidos de novo ao hotel, despedida e gorjeta ao condutor e ao guia, lauto jantar, dormida, lauto pequeno-almoço e deslocação para o aeroporto. Seguia-se Khajuraho, a cidade das estatuetas atrevidas.
Khajuraho com templos e muito sexo desenvergonhado
Chegámos a Khajuraho no dia 11 de Outubro, com o mesmo calor, humidade, cheiros e cores dos dias anteriores.
Passado o zumbido do enxame de vendedores de templos miniatura em plástico, a que já nos tínhamos habituado, a entrada paga para os vinte Km2 que albergam os 25 dos 80 templos sobreviventes da Khajuraho milenar transporta-nos para uma outra ideia de Índia, bem diferente da que tínhamos visitado até esse dia.
Turista “oblige” e o lixo dá lugar a jardins relvados de estilo britânico, o barulho infernal do trânsito demencial ao silêncio cansado de um orgasmo suspenso para toda a eternidade.
Capital cultural da dinastia Chandel, Khajuraho não tem muralhas nem edificações fortificadas, pois nunca foi a capital política nem residência dos reis daquela dinastia.
Escrito na pedra, num livro a que há 150 anos os ingleses arrancaram a capa que a selva laboriosamente construíra, Khajuraho não existe.
Está lá, mas não existe.
À leitura fácil e jocosa das páginas eróticas deste livro de pedra segue-se a meditação solitária sobre o verdadeiro significado desta imensa glorificação do poder do sexo, elevado à categoria de valor cultural supremo.
E é-o de facto, não no seu episódio mais dramático e aniquilador que é a consumação do acto, mas no tortuoso caminho para lá chegar.
Só 10% das esculturas em pedra são representações fálicas ou de jogos de submissão sexual; mas são o “leit motif” de 90% das fotografias dos visitantes.
Os outros 90% representam a verdadeira base do poder social, que não se alterou até aos nossos dias: não o sexo explícito mas, acima de tudo, o uso do sexo como investimento de capitalização garantida e “breakheaven” quase imediato.
A representação de cenas do quotidiano feminino – pondo maquilhagem, jogando, dançando, vestindo e despindo roupas – são um verdadeiro livro de instrucções para “bem seduzir”, seja o sexo oposto ou o próprio sexo, se esse fosse o caminho mais curto para a fuga à organização patriarcal da sociedade indiana medieval.
Tendo sofrido, pela sua situação geográfica, um contínuo de invasões e submissões militares, sem grandes fervores religiosos, a emergência das castas, que terá começado como uma forma de manutenção da identidade dos “clãs” submetidos, rapidamente se tornou um factor de discriminação social e hierárquico.
Os homens, com as obrigações militares e a responsabilidade da condução económica do clã, transmitiam, geração após geração, o estigma de casta.
A mulher poderia fugir a esse destino usando a arma mais poderosa que a natureza concebeu: o sexo.
Daí a procura de casamentos “hipergâmicos”, isto é, o casamento dentro de um grupo social (casta) superior.
Mas voltando à contemplação dos templos, não se fica indiferente perante a exposição quase marcial do verdadeiro órgão do poder e ao mesmo tempo a fonte de todas as fraquezas do homem: o pénis.
Lembrando Obélixes que, em vez de terem caído no caldeirão da poção mágica em pequenos, tivessem sido desmamados com biberões de Viagra logo após o nascimento dos primeiros dentes, a uniformidade de formas destes pénis, assim expostos, contrasta com a imensa variedade de curvas, posições, sugestões e insinuações que as figuras femininas nos oferecem.
Nisto reside o verdadeiro poder da mulher: dar vezes sem conta a mesma coisa, fazendo-a parecer sempre diferente, como se fosse a primeira vez.
Poder que se torna absoluto se intercalado, sabiamente, com a sua negação.
Ninguém fica indiferente a Khajuraho, como o prova o olhar falsamente desinteressado de alguns visitantes. Ou porque a pobre vida sexual que sempre levaram nada tem a ver com tudo aquilo ou porque todas as suas mais secretas e inconfessáveis fantasias os fazem recear que alguém tenha o poder de ler pensamentos.
Aquele lugar não existe.
Nada nos dias seguintes provou sequer que lá estivemos. Nem um comentário, uma alusão ou sequer uma inspiração transpareceram em qualquer elemento do grupo.
De volta ao hotel, os inevitáveis vendedores de recordações. Como em situações anteriores semelhantes o nosso guia, depois de discretas “negociações”, aparecia como intermediário do único vendedor que lhe “merecia confiança”, sentimento que continuava a não ser partilhado com o nosso grupo, frustrando assim mais uma oportunidade para o “comércio” local.
E também as inevitáveis lixeiras, vacas, cabras, e demais animais que por razões inexplicáveis foram promovidos a sagrados.
A multidão de pedintes pouco convictos, indistinguíveis dos não pedintes, descendentes da mesma cultura que produziu Khajuraho, agora despojados do poder de outros tempos, como gregos e romanos noutras latitudes e épocas também perderam glória e proveito.
Khajuraho não existe
Na terra do eterno amor
Nesta repartição de memórias pelas terras do cravinho e da canela, coube ao casal Mota Melhorado “xilofonar”sobre AGRA.
A meio da tarde do dia 13/10 deixamos, sem saudade, a estação de comboios de JHANSI, por via do pesadelo odorífero.
A viagem decorreu sem incidentes e com agradável surpresa pela comodidade dos lugares, generosidade no espaço e serviço de restaurante de 1ª classe.
Chegamos a AGRA ao início da noite, tomando directamente o “transfer” para um modesto restaurante.
Depois do jantar rumamos ao JAYPEE PALACE, hotel de 5 estrelas com um enorme espelho de água nos seus jardins.
Após distribuição dos quartos fomos informados pelo guia que iniciaríamos a visita ao TAJ MAHAL antes do nascer do sol, com o propósito de usufruir do seu efeito mágico.
A horas, que nem na caça uso, lá vamos no trânsito “magnetizado”da ÌNDIA onde os bizarros veículos parecem possuir pólos repulsivos. Chegados a um largo parque de estacionamento, fizemos transbordo para pequenos autocarros. À nossa espera estavam longas bichas homossexuais para a entrada.
Transporta a escadaria de acesso, a multidão num movimento de formigueiro ocupava os bancos de mármore da fonte de Lotus (devido á forma dos repuxos) para posar tendo como cenário de fundo os jardins e o mausoléu.
Assim fez a princesa Diana e assim fizemos nós.
Nos jardins quadripartidos por cruz líquida para irrigação, conseguimos fotos artísticas com reflexo de óculos escuros, com dedo na cúpula do túmulo, assédio sexual etc…
O mausoléu é uma jóia arquitectónica engastada por quatro minaretes numa proporção e harmonia geniais.
Algumas incrustações no mármore deixam-nos maravilhados.
Até pormenores de menos valia técnica são de nível superior.
Recordo trecho de espinhado decorativo dando a interessante ilusão óptica de arestas em superfícies lisas.
A peça rendilhada esculpida num único bloco que serve “biombo” ao túmulo de Mumtaz Mahal e Xa Jahan ,é uma das razões que elevam este monumento a um dos mais famosos do mundo.
O jantar programado para o restaurante do Jaypee, foi anulado por uma ocupação extraordinária.
O nosso “dirigente,” mais intransponível que o da classe operária, negociou com o guia substituir a refeição num restaurante chinês ,observado por nós nas escadas de acesso ao piso inferior.
Instalados no dito “chinês”, com certo ar de luxo, começamos a estudar a ementa.
Entretanto, cortando o barulho de fundo resultante habitual do estudo, foi comunicado em voz baixa que os promotores do serviço turístico não suportavam a despesa.
Surgiram propostas de abandono da sala, mesmo tendo já “morfado”algumas entradas.
Novo telefonema e solução: pato lacado em altas doses para todos.
No dia seguinte visitamos parcialmente o Forte, dada a presença de instalações militares.
O salão de audiências públicas do imperador foi objecto de interesse fotográfico pela perspectiva dos arcos e colunas.
Um dos aposentos do lado este sobranceiro ao rio Yamuna, serviu de prisão a Xa Yahan deposto pelo filho.
Conta-se que passou os últimos tempos de vida, a admirar através de uma pequena janela a morada da esposa favorita.
Manhã do dia 15 novamente na estrada para Jaipur visitando Father Pur Sikri.
Trata-se de um conjunto monumental, onde o imperador Akbar fundiu os estilos hindu e islâmico.
Esta capital foi abandonada por falta de recursos hídricos.
Mais estrada com reportagens radicais nos lugares da frente.
O tripulante junto ao motorista encorajava a novas “realizações” com movimentos de cabeça similares aos dos cães de barro na traseira dos automóveis “kitados” na minha juventude.
Jaipur pelos olhos de duas damas de ouro
Como vem sendo habitual, as viagens de carro são o expoente máximo da rutura do convencional ocidental. Nas auto estradas, o histerismo dos encontros com vacas, búfalos e outros, rapidamente dão lugar à habituação. Os quase choques frontais que tanto pânico em nós geravam nos primeiros dias, rapidamente foram substituídos por um sentimento de integração no quotidiano indiano.
Nas ruas encontrava-se muita sujidade,vacas e gente empurrando carroça, carros velhos muitas motos e rickshaws ,além dos abençoados elefantes que mentalmente nos martirizavam só de pensar em andar lá em cima.
Enfim, lá chegámos a Jaipur capital do maior estado da India, o RAJASTÂO. Tem duas línguas oficiais, o hindu e o rajastani, igualmente imperceptíveis para os nossos ouvidos poliglotas. Chegámos à noitinha e instalámo-nos muito bem no hotel Royal Orchid. Estavamos a 16 de Outubro de 2012.
Logo pela manhã do dia seguinte, para não sermos apanhados pelo calor escaldante, fizemos a visita a cidade, mundialmente conhecida como cidade cor-de-rosa, pois em 1876 o seu Marajá mandou pintá-la aquando da visita do príncipe de Gales .
Desta vez escolhemos um guia que falava uma nova língua,“Espanholindio” porque os Ws transformados em vês do inglês tornavam-se fastidiosos para os nossos ouvidos . Tentativa mais que frustrada! A confusão era a mesma.
O monumento Hawa Mahal o “ Palácio dos ventos, estrondoso pela sua grandeza e beleza, foi construído em 1799 pelo Rei poeta Sawai Pratap Singh, está repleto de janelas (953), para que as Damas da Corte, pudessem desfrutar das manifestações, procissões e das atividades quotidianas da cidade de um lugar fresco e sem serem observadas do exterior. (Por acaso foi em frente que eu, Lina, comprei caril para oferecer aos meus amigos um frango da minha terra com o dito, mas afinal quem se ficou a rir foi o sacana do policia do aeroporto que fez o favor de mo tirar; mas não será por falta desse caril que não haverá frango).
Esta é a cidade Rosa, linda, a cidade da vitória, rica pela sua cultura, e onde se conservam cuidadosamente as relíquias do passado e da sua antiguidade aristocrática.
Jaipur faz parte do triângulo dourado entre Agra e Delhi. Também é uma cidade construída e segura contra terramotos, uma vez que Sawai Jai Singh era matemático e astrólogo, daí que no Palácio Jantar Mantar fosse colocado um Observatório ao ar livre, fora da arcada do Palácio. Estava cá um calor!!!...
Era um dia festivo e como tal não tivemos elefantes que subissem connosco até ao Amber Fort. Fomos de jeep , muito bem e depressa.
Nova confusão de guias, vendedores com os seus postais, canetas, colares e tudo que tentávamos ver sem darem por isso, para não virem importunar-nos. A muralha que envolve o forte tem cerca de 16 Km e a vista é estupenda.
O Forte foi construído em 1600 tem halls de audiencia , templos hinduistas, mosaicos de espelho além de vários corredores e passagens secretas que o Marajá usava para visitar as suas Rainhas, que pensamos serem três a última das quais portuguesa de Goa e Maria ( ainda por cima).
Os pedintes (figurantes) prestavam-se a belas fotos a troco de algumas rupias. Do Forte vê-se o palácio Jal Mahal, localizado no meio de um lago artificial. Onde seria a residência de verão do Marajá.
Devido as festividades da zona, fomos a uma aldeia próxima, para darmos o nosso passeio de elefante e que foi uma experiência “cheirosa” e fantástica. Fomos novamente assediados pelos locais, para tirarmos fotos junto dos elefantes com os seus turbantes bem limpinhos.
O casal Barros, não quis as fotos, mas atiraram-nas para dentro do bus, e decorridas umas horas foram exigir o dinheiro.
E lá demos a volta pela aldeia, bem instaladas no elefante numa terra longínqua, muito unidos e brincalhões. Aipad! Aipad! Onde estás tu? Parece-nos que com o calor adormeceste ou fizeste greve. O teu amo clama por ti nesta próxima estirada de Jaipur a Delhi.
Aipede Novo, Aipede Velho - regresso à espelunca
Hei, hei, hei...estou aqui, estou aqui, não me deixem aqui! Estou na bolsa do assento do avião. Piriliu, piriliu. piriliu. Mochila Sansonite, avisa os humanos que me estão a deixar aqui! Estás lixado, Aipede, que eu, tal como tu, não sei falar com os humanos, ou melhor, eles não nos entendem, são mais estúpidos do que nós, que os conseguimos perceber. Pode ser que os que vêm mais atrás ao passar por aqui te vejam e te levem. Se não, até pode ser que tenhas a sorte de ir parar a melhores mãos. Não, não quero, quero ir convosco, já vos conheço, até fizémos amizade nestes dias todos. Então contigo foi demais: andei quase sempre na tua bolsa de dentro, és fofa, trataste-me sempre com delicadeza, conversámos imenso. Oh, vamos mesmo sair do avião, a fila já está a andar. Se não nos virmos mais, desejo que sejas muito feliz. Que horror, aqui fico eu abandonado...
Alô, daqui fala o Aipede Velho, aquele que tu vieste substituir. A minha ama deixou-me abandonado na bolsa do assento do avião. Muito gosto em ouvir-te: isto das novas tecnologias é um assombro: dois Aipedes conseguem falar-se a grande distância. Já tinha ouvido falar de ti, onde é que moras agora? Moro na Reboleira, Amadora, em casa duma mulher que trabalha na limpeza dos aviões. E que tal, dás-te bem aí? É horrivel. Isto deve ser parecido com o inferno dos católicos. Cá em casa quase todas as noites há discussões: ora entre os casados, ora dos casados com o filho, ora com a filha, já vi mesmo porrada, com a mulher a levar dois valentes estalos do marido. Ela chegou a casa às 2 da manhã e ele, ciumento, não acreditou que ela tinha saído do aeroporto à meia noite. Conversa para cá , berro para lá, pimba! O meu amo agora é o puto, de 16 anos, filho deste casal. Passo a vida nas mãos dele, sempre suadas, poucas vezes lavadas e a maior parte do tempo a coçar os tintins. Farta-se de ver filmes, sempre de acção, ora de porrada, ora pornográficos. Até umas fotos eróticas do antigo amo tiradas em Khajuraho servem de pretexto para o puto fazer poucas vergonhas. Mas já ouvi dizer que Khajuarhu não existe, como é que há fotografias pornográficas de lá dentro de ti?
Mas já que aqui estamos a falar conta-me lá a parte da viagem a partir de Jaipur, que a restante já a li no Google Drive escrita pelos humanos. Não te poderia contar grande coisa se fosse doutro lugar, porque o teu amo pouco escrevia em mim. Quase sempre utilizava o computador do Estebes para colocar as fotos no Facebook. Porém, nesta parte da viagem utilizou-me muito e sei bem o que se passou. Na minha opinião, agora que ele já não é meu amo e posso falar à vontade, aquilo foi muito mal planeado: os gajos meteram-se a fazer uma viagem na India numa autoestrada que mais parecia a antiga estrada Porto-Lisboa e demoraram um dia inteiro para andar 280 kms. Vi de tudo: estrada bem esburacada, a maior parte do trajecto estava em obras, havia trânsito a circular em sentido contrário, motas e bicicletas e pessoas a pé misturadas com milhares de camiões poluidores, a suspensão do nosso autocarro dura como a dum camião do exército, muitos saltos, muita lentidão. Este percurso era para fazer de comboio, nunca por estrada. Estava-se mesmo a ver: os roteiros falam em 6 horas de percurso à media de 45 kms à hora, ou seja, mais ou menos a dos antigos comboios de via reduzidada que circularam até aos anos 70 no norte de Portugal (curioso que também numa zona dos Himalaias indianos há três destas vias férreas ainda activas, que hoje são património mundial da humanidade classificadas pela UNESCO). Só foi bom porque aproveitaram o caminho para visitar a aldeia de Samode onde fica o palácio com o mesmo nome. Embora o desvio a partir da autoestrada seja demorado na ida e na retoma, valeu muito a pena, porque a arquitectura e a vista são belíssimas. O palácio, programado pelos nobres da corte da família real, foi construído em arenito no sopé da cadeia montanhosa Aravalli e protegido por fortes e muralhas lá no alto. No interior do palácio predomina o estilo arquitetónico do antigo do Rajastão: pisos de mármore, pilares primorosamente ornamentados, paredes de cerâmica (com pequenos pedaços de pequenas pedras incrustadas), decoradas com pinturas murais antigas (cenas de caça, motivos florais e assim por diante). A porta de entrada do palácio é uma peça única, construida em madeira escura, com configurações de mármore e vidro. Os nossos amigos humanos encantaram-se e fotografaram-se ainda com O Taj Sheesh (Hall dos espelhos) onde o Marajá recebia e reunia os ministros. Actualmente o palácio vive sustentado por um hotel da família proprietária, no qual o amo e seus amigos invejaram não ter ficado ao menos uma noite. Mas almoçaram lá naquele dia e, pelos relatos, muito bem. Tanto, que tiveram que andar a pé pela aldeia de Samode para “esmoer” a pançada. Limitaram-se a ver umas lojas de artesanato, especialmente de couro do Rajastão.
A partir dali foi sempre a andar para Delhi, quer dizer, a andar devagar para Delhi. Partimos às 2 da tarde e chegámos perto das 9 da noite.
O meu ex e actual teu amo sintetizou magistralmente no feicebuque o que se passou, num post datado de 19 de Outubro, da seguinte forma: Depois duma viagem durríssima desde Jaipur entrámos no inferno de trânsito que é Deli. É uma metropole imensa com 22 milhões de pessoas, com muitos a deslocar-se de carro (muitos um carro um homem), a tornar a circulação lentíssima. Pior é impossível: para se chegar a qualquer lado são horas a circular parados. Hoje, último dia por cá, resolvemos circular de metro e a coisa resultou muito melhor. A rede é boa, as viaturas também e vai rapidamente aos locais mais interessantes. A cidade em si está bem desenhada, com grandes avenidas e muitas remeniscências dos ingleses, mas é típiicamente uma cidade de terceiro mundo com bolsas de pobreza escandalosas, muita gente, especialmente crianças a pedir na rua, havendo lixo e mau cheiro quanto baste em muitos locais. Monumentalmente pouco tem de interessante e, em resumo, vale passar por cá apenas para se apanhar o avião de regresso a casa. A Incredile Índia está muito fora destas metropoles citadinas.
Bom, mesmo muito bom, foi o hotel em que ficaram em Delhi: para além dum quarto bem desenhado, bem decorado e confortável, tinha uma cozinha internacional de grande categoria. Os jantares eram de tal forma excelentes que os tipos todas as noites se sentiram obrigados a beber uma ou duas garrafolas de vinho ao jantar, que aqule comida com água gerava rãs na barriga. O repasto era em self service e, não percebi logo a razão porque os homens iam muitas vezes reabastecer o prato, sempre pouco de cada vez, o que não era costume. Constou-se que era para passar mais vezes perto da cantora chinesa que todas as noites alegrava o ambiente repasteiro com sua voz aguda, suas formas amplas e suas saias reduzidas. O puto, meu amo actual, chama-lhe um figo com caril e arroz!
Mas o Crown Plaza ficava em Rohinie, um bairro fora do centro, assim um Leça da Palmeira em relação ao centro do Porto, e com aquele trânsito lentíssimo as visitas aos monumentos foram muito abrevidas e perderam a piada. No primeiro dia viram por fora o Forte Vermelho, que é o mais famoso monumento de Nova Delhi,que permanece como um poderoso lembrete dos imperadores Mughal, que governaram a India. As suas muralhas estendem-se por mais de dois quilômetros e foram construídas em 1638 para conter os invasores. Ainda na velha Delhi viram o que estavam cheios de ver noutros locais: ruas porcas apinhadas de humanos, de rickshós e de animais, casa velhas, lojas toscas, gente miseravel a comprar a sobrevivência. A mesquita Jama Masjid foi passada ao lado com vistas pelas janelas do autocarro, que deixaram ver a monumentalidade (cabem lá 25 000 pessoas duma só vez; Fátima leva mais, não leva?), mas também a degradação. Quão longe está esta mesquita das que os amos viram no Dubai, no Abu Dabi e nos EAU. Nem Alá ajuda na distribuição da riqueza que constroi as mesquitas da oração.
Mas depois de muito penar no trânsito lá conseguiram uma aberta para ver algo interessante e por dentro: o Túmulo de Humayun, que se parece um pouco como o Taj Mahal em Agra, já que o arquitecto desta maravilha se inspirou aqui. O túmulo foi construído em 1570, e abriga o corpo do segundo imperador Mughal, Humayun. O túmulo é parte de um grande complexo que está situado entre belos jardins, mas quem primeiro viu o Taj, já não valoriza devidamente esta peça arquitectónica.
Mais uma vez, estes doze humanos (doze? não houve um grupo famoso de doze tipos que andaram a seguir um barbudo há dois mil anos? que coincidência numérica estranha! e, outra coincidência estranha, a certa altura até houve um que foi preso por um polícia indiano, qual Judas Iscariotes) passaram ao lado duma das grandezas turísticas de Delhi, o Qutab Minar, o minarete de tijolo mais alto do mundo (curioso que os turismos locais sempre arranjam para mostrar aos turistas uma maravilha guinessiana superlativa absoluta máxima). Viram por fora, fotografaram pela janela do camião-feito-autocarro e zarparam para o Templo de Lotus, onde fizeram mais um percurso a pé, tiraram os sapatos, entraram no templo que não tem religião, mas que é de todas, sentiram a paz do lugar, meditaram, sairam para os jardins envolventes, calçaram-se (alguns viram-se aflitos para encontrar os sapatos que outros haviam escondido) e contemplaram a harmonia e grandiosidade do monumental edifício-branco-lotussiano de paredes-pétalas elevadas para o céu. Mas o dia era grande e ainda chegou para ver a Porta da India, lugar amplo e ajardinado, com um arco de triunfo a emitar o de Paris, carregado de buses de turistas como nós, que saíam, batiam forte nas minoltas enquanto diziam cheese e de novo entravam nos latões rodados a caminho do visto em mais uma atração da Delhi velha ou nova.
Regresso à base, demorado como convém neste trânsito arrastado, jantarada de rabo do olho na chinesa a cantar fininho e pernoca depilada bem à vista gulosa dos antónios, dos pinheiros, dos esteves, dos melhorados, uma, depois outra garrafa de tinto para abafar a carnucha, dormir e mais um pequeno almoço que se come em quantidade acumulada para servir de almoço também (pura ilusão! que os gajos almoçaram sempre...).
De barriga cheia é que os portugueses acham que decidem bem. E assim foi mais uma vez: no segundo dia, resolveram ir de metro para o centro de Delhi e abandonar as viagens no autocarro-zorra, que até já estava pago. Ó Aipede novo, ainda estás acordado? Não dizes nada? Estou aqui a falar para o boneco? Estou a ouvir muito bem! Estou interessadíssimo! Continua. Então cá vai. Estes doze fulanos-não-apostolos são mesmo estranhos: nunca se lembravam de nada, especialmente do nome dos lugares mais complexos escritos na língua local, mas da Praça Connaught’s todos decoraram à primeira e, entre eles, pronunciavam-no duma maneira estranha, assim: conadaugt. O Aipede Novo, consegues explicar-me isto. Se tu que conheces os portugueses há mais tempo, não sabes, como queres que eu saiba, Aipede Velho? O certo é que lá foram no metro direitinhos à Praça da Conadaugt ou lá como é que se diz. A praça é o centro geográfico da nova Delhi e à volta do gigantesco círculo está um comércio imenso, dentro de edíficios tipicamente coloniais, de conservação pouco apurada na maior parte dos casos. E foi por aqui um sub-grupo dos doze levou a tanga dum “empregado bancário” que os abordou na rua para os ajudar a encontrar a loja que vendia avulso as especiarias indianas que as senhoras tanto queriam levar para Portugal. Acabaram metidos em três rickshaws que estavam feitos com o bancário e que milagrosamente apareceram do nada para serem transportados para uma loja “já ali”, mas que na verdade fica a 2 ou 3kms de distância, que no final era quem pagava comissão a todos: ao bancário angariador e aos transportadores. Depois duma recusa de ficar numa das lojas, lá foram levados para outra onde encontraram as especiarias e em seguida para ainda outra onde provaram e compraram chá. No final ainda deram uma gorja aos homens dos rickshaws, como que a premiar a arte de sacar dinheiro aos turistas espertos ocidentais.
Voltas e mais voltas, pernas com a dor-de-ver-montras, entrada na gare metro, passagem pelo empurrão para o funil da entrada comprimida no gargalo da carruagem, seguir em pé com uma mão agarrada no alto e outra sobre o bolso da carteira trocando comentários jocosos numa língua que a maioria dos circundantes tenta adivinhar (russsian?), e, 45 minutos passados, chegar ao hotel e repousar um pouco. Ainda uma volta final por um centro comercial vizinho desinteressante, e de novo o jantar muito e bem com a chinesa (cada dia a intimidade era maior).
Um sono rápido e às 4 da manhã toque de alvorada para levantar e seguir para o aeroporto. Finalmente os nossos amigos humanos seguiam deliciados com a vista nocturna do Delhi, com a paisagem urbana a deslizar em filme pelas janelas do ronceiro mastodonte sem que a fita quebrasse como acontecia com a paragem do trânsito caótico da luz do dia.
Já é dia, e dia 20 de Outubro de 2012, o 747 da British vai a horas e vamos todos (humanos, Aipede Velho e Mochina Sansonite - as malas vão no porão cheias de frio) atravessando o Paquistão, O Afeganistão, com paisagens desérticas já salpicadas das primeiras neves e gelo nos pontos mais altos, o Irao, o mar Caspio, o mar Negro, mares imensos no meio de terra continental, a Roménia, a europa desenvolvida e finalmente Londres. A bicha infinita de Heathrow para o controle das entradas, a segurança apertada para a saída e de novo mais avião em direcção a Lisboa. Duas horas e meia de sudokus, uma aterragem e entrada na bolsa do avião e adeus amo, adeus ama, adeus companheiros de viagem, adeus Mochila Sansonite, adeus polos.
Hei, hei, hei...estou aqui, estou aqui, não me deixem aqui! Estou na bolsa do assento do avião. Piriliu, piriliu. piriliu, piriliu, piriliu. piriliu, piriliu, piiiiiiriiiiiliiiiiuuuuu, piiiiiiiiiiiriiiiiiiiiiiiiliiiiiiiiuuuuuuu...
Obrigado pelo relato, amigo Aipede Velho. Comovo-me sempre com a história do teu ababdono e agora até me deixaste com lágrima no canto do ecran... Mas há sempre duas faces na moeda: não fora isso, e eu não estaria aqui. Como dizem os humanos, continua a ter esperança: um dia destes o puto vai arranjar uma namorada que gosta de fazer sudokus em ti, que te vai levar de passeio ao Colombo, que no regresso te vai deixar esquecido na cadeira do autocarro e vais parar a casa dum humano com quem serás muito feliz, assim do tipo duma chinesa que canta músicas de bar de hotel internacional em voz aguda, de perna depilada, de formas avantajadas e saia reduzida.
Fica-te e vive melhor com esta esperança, que os humanos também assim fazem para aguentar a má vida: uns, acreditam que têm uma vida infinita de prazeres incomensuráveis depois desta terrena miserável, outros, mais imediatistas, jogam como loucos na raspadinha e no euromilhões na esperança que, de cada vez que o fazem, estão a momentos de parar de trabalhar e passar o resto da vida a gozar os rendimentos.
Obrigado, amigo Aipede Novo, de quando em vez vou-te ligar, que é bom falar contigo.
Piriliu. piriliu.
Piriliu, piriliu.